segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Vamos falar de comida?


Estou aqui à espera que as semanas se esgotem. Não tenho muito para fazer, entretenho-me a ouvir o que se passa lá fora. Já consegui perceber algumas coisas sobre o mundo no qual estou prestes a entrar, e até fiz alguns planos para me integrar (talvez o verbo “impor” ilustre melhor as minhas intenções).
É evidente que as refeições são momentos importantes do dia. O pai e a mãe alongam-se nas conversas à mesa. São pausas infindáveis, não há paciência! Eu tenho todo um mundo para descobrir, não posso ficar horas a ouvi-los conversar.
Quando eu nascer, o esquema de refeições vai divergir do atual em alguns pontos:

  • Brunch aos domingos de manhã?! Querida mamã, se eu te der duas horas de sossego, vais aproveitá-las para dormir, não para fazer panquecas e ovos estrelados!
  • Vão fazer risotto para jantar? Coordenem lá isso de forma a estarem os dois em casa na hora de cozinhar. A menos que queiram passar meia hora a mexer o arroz ininterruptamente, enquanto consolam um bebé sedento de atenção!
  • Convidar amigos para um jantar de pizzas caseiras com um forno em que só cabe uma de cada vez?! Ouvi dizer que há muitas pizzarias que fazem entrega ao domicílio (promoções à segunda-feira, tomem nota porque é preciso folga orçamental para as fraldas).
  • Com vontade de jantar fora? Nos centros comerciais há fraldários espaçosos, espaço de amamentação, piso regular para o meu carrinho e o meu choro não vai incomodar ninguém! Só não sei se os restaurantes de lá estão no top 10 do Tripadvisor…
  • Convite para jantar em casa de amigos? Fixe! Vou gostar de passear. Ah, é para começar a jantar às 22h? Pois… não dá! A essa hora já devemos estar todos a dormir.
  • Noori, eu sei que gostas muito de provar o que se come cá em casa. Vais ter que te contentar com a ração. Qualquer bocado de massa que sobre será para guardar. Pode dar jeito quando eu não deixar a mãe cozinhar ou reabastecer a despensa.
Estas regras só se aplicarão nos primeiros meses de vida, enquanto eu me alimentar à base de leite materno (de 3 em 3 horas durante o dia, de 2 em duas durante a noite! Ihihihih), papas e sopas. Quando começar a comer de tudo, faremos uma revisão das regras. Mas não tenham ilusões, nos próximos anos não haverá almoços longos ou jantares tardios!

 Planos do Timmy


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O dia em que me deram um brinquedo estranho


Eles andam estranhos, sobretudo ela que se parece comigo quando fico muito tempo sem “ir à rua”. 
Ontem, trouxeram-me um brinquedo novo. Parecia um daqueles humanos em miniatura dos quais nunca me deixam aproximar. Não sabia bem o que fazer com aquilo. Eles fitavam-me expectantes, tinha de agir. Pus o narizinho a trabalhar e aproximei-me. Cheirava a plástico delicioso, igual ao cheiro de todos os meus brinquedos (e dos chinelos de verão deles. Até estou a salivar só de me lembrar!). Agarrei o brinquedo pela parte que se assemelhava a uma bola e preparava-me para rodopiar com ele na boca em sinal de agradecimento, quando fui repreendida. Fortemente repreendida. Não esqueço o olhar dela. Tirou-me o brinquedo e embalou-o junto ao peito. O que é que se passou? Deram-me um brinquedo e eu agi em conformidade! Acalmaram-se e voltaram a estender o brinquedo na minha direção. Fiquei nervosa. O meu instinto dizia-me que devia agarrá-lo e fazer a dança do agradecimento, mas a minha memória mostrava-me a cara de horror deles. Decidi ladrar, tentar que me explicassem o que esperavam de mim. Ficamos nisto uns tempos até que guardaram o brinquedo numa das prateleiras fora do meu alcance. Preparei-me para dormir mas não conseguia esquecer o sucedido. Comecei a rever mentalmente as últimas semanas e percebi que eles andavam com atitudes estranhas:
  • A seleção musical é diferente, usam o youtube para ouvir pequenos humanos a chorar, algo que mexe muito com o meu sistema nervoso! E só o fazem quando eu estou por perto. Será que me querem afastar?
  • O brinquedo de hoje tinha um botão na barriga que reproduzia sons semelhantes aos do youtube. Talvez isso fosse um sinal de que não me deveria ter aproximado…
  • Tentam, em vão, proibir-me o acesso ao quarto de hóspedes. Que raio, se não dorme lá ninguém por que não o posso usar para as sestas?
  •  Não há sossego de noite, ela levanta-se de hora em hora para ir à casa de banho (Nota mental: organizar um workshop sobre aguentar o xixi 12 horas na bexiga) .
  • Estão a acumular numa gaveta muita roupa que serviria ao brinquedo de hoje. Que desperdício de dinheiro! O brinquedo não precisa e eu agradecia que investissem numa capa para a chuva. Detesto voltar para casa molhada depois dos passeios!
Bem, vamos ver se isto melhora. Até lá vou estar atenta a atividades suspeitas. Estou habituada a ser tratada como uma princesa e gosto.
 
Memórias da Noori


                                                                                              

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Timmy



Eu cheguei em segundo.
Cheguei sem direito a negociações, sem estudos do impacto no orçamento familiar ou no equilíbrio emocional dos 3. Se os tivesse havido, provavelmente não estaria cá. Cheguei e avisei logo que isto não seria fácil. As minhas expressões não deixavam margens para dúvidas (grumpy baby, chamavam-me eles ingenuamente). Decidi prepará-los logo para o que se avizinha (a adolescência na minha geração não vai ser fácil! Eu e o meus colegas de escola já temos tudo preparado!) e não havia necessidade de iludir ninguém com expressões fofinhas de bebé. Isto vai ser mesmo a doer.
Ou eram essas as minhas intenções..! As lambidelas da Noori derreteram parte do meu gelo, o quentinho do colo do pai e da mãe trataram do restante. Hoje, fora as ocasionais birras, sou um bebé risonho e bem-disposto. De dia. Quando o sol se põe, o Grumpy Baby regressa. Na verdade, a minha personalidade ainda está em formação e até me definir (se é que algum dia isso acontecerá) vai ser uma aventura vivida a 4, a qual vos convido a seguir!

Timmy




quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Noori

Eu cheguei primeiro.
 Ele queria um animal de estimação, de preferência um cão, ela não achava boa ideia. Ele sentia que nunca teve nenhum. Sim, em criança havia cães e gatos lá por casa que alimentava mas com quem nunca criou laços. Ela, filha única inconformada, passou a infância rodeada de gatos que tratava como amigos. Sempre se definiu como cat person até que, aos 20 anos, decidiu juntar uma cadela à família. Passou a ser cat and dog person
Começaram as negociações: ela, embora com sérias reservas quanto à ideia de ter um animal de estimação num t1 sem varanda, preferia um gato - mais limpo, mais autónomo, mais fácil de transportar (os fins de semana são passados na terra natal de um e de outro); ele preferia um cão por pensar que criariam laços mais fortes. Ainda longe de um consenso, decidiram fazer uma avaliação no impacto que o novo membro da família (fosse cão ou gato) teria no orçamento mensal. Foi então que os nossos olhares se cruzaram. Foi amor à primeira vista. Era com eles que queria ir para casa. Fiz o meus melhores puppy eyes (tinha apenas 10 semanas, era a coisa mais fofa), combinei-os com um choro insistente e duas patinhas suplicantes. Ele não precisou de a convencer, estava rendida aos meus encantos. A partir de então, passamos a ser uma família de 3. Mas não durou muito...
Noori