terça-feira, 3 de outubro de 2017

2pés na areia



Gosto muito de praia. Nem precisa de ter mar, gosto de fluviais também. Adoro brincar na areia: posso correr sem me magoar ao cair (é inevitável, acontece sempre), a textura provoca-me uma comichão agradável nos pés, a areia molhada é um óptimo esfoliante e não há portas fechadas para limitar os meus movimentos (desde que descobri que a mãe guarda o queijo no frigorífico, a porta da cozinha passou a estar sempre fechada. Uma injustiça!).
Nos últimos meses fomos muito à praia. Eu, o pai, a mãe e, por vezes, os avós ou amigos. No último domingo, esteve calor e os pais quiserem aproveitar o dia para ir à praia. Desta vez foi diferente: a Noori também foi! Gosto de ser o centro das atenções, mais gosto ainda mais da Noori e não me importo nada de dividir as atenções com ela (mas só com ela!). Não percebo porque é que a Noori nunca tinha ido connosco. Ela consegue gostar mais de praia do que eu! Além de aproveitar toda a liberdade do areal para correr (e corre sem cair! Tenho que lhe pedir umas explicações…), entra na água gelada do mar. Eu já tentei molhar os pés, mas ficaram logo dormentes. Gosto muito de água mas é a 37º! Falaram-me duma praia algures nas Caraíbas… vou ver se os pais querem ir lá no próximo fim de semana!
A Noori estava eufórica. Correu, nadou, gastou muita energia! Eu observei-a, a uma distância de segurança para não congelar, e ri às gargalhadas das suas acrobacias. Até que me fartei. Pensei fazer um castelo de areia, mas já havia muitos na praia e o meu, certamente, não iria ser mais vistoso do que os dos outros miúdos (recorreram todos à ajuda de adultos, devia ser proibido!). Desisti da ideia do castelo e optei por fazer um buraco. Havia por lá alguns, mas todos pequenos. Eu posso não ser profissional a fazer castelos, mas sou muito bom a fazer buracos (a Noori, calculista como sempre, ensinou-se a fazer buracos no jardim para eu guardar o pão do meu lanche e ela desenterrar e comer sempre que quisesse). Fiz um grande buraco, sem dúvida o maior da praia, mas não tinha pão para esconder lá, por isso…
Timmy

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Felinidades do quotidiano



Há quem diga que tive muita sorte pela família que me calhou. Discordo. Penso que eles é que têm muita sorte por poderem fazer parte da minha vida. Não sou uma simples cadela que se contenta com um pedaço de carne e um mimo esporádico do dono. Aprendi a apreciar as coisas boas da vida (vida de cão não é para mim!). Inicialmente, o meu instinto dizia-me que devia ser submissa e amar incondicionalmente os meus donos. Depois mudei.
Ainda não tinha feito um ano, quando se mudou para a casa do outro lado da rua um casal de meia idade. Com eles veio um gato, o Jeremias. Odeio gatos. Cheiram tão mal! As pessoas que vivem com gatos devem ter constipações crónicas ou o olfato avariado. O meu olfato nem é grande coisa (mais uma prova de que não sou uma cadela vulgar), mas consigo sentir o cheiro a gato a mais de 100 metros! É gatos e atum. Não podem abrir uma lata no rés-do-chão sem que eu comece a salivar! Voltando ao Jeremias… Não conseguia dormir com um gato tão próximo de mim. Até perdi o apetite de tão enjoada que andava com aquele odor. Decidi começar a estudar as rotinas dele, perceber quando costumava ir à rua para forçar um passeio ao mesmo tempo. Talvez se nos cruzássemos e eu o conseguisse intimidar, ele fugisse para longe.
O Jeremias passava os dias de sol numa poltrona junto à janela. Os donos chegavam a casa e ele não se mexia. Nem um rasgo de excitação deixava transparecer. Que animal ingrato, pensava eu. Os donos lá se aproximavam dele e faziam-lhe umas festinhas. Ele abria um olho e voltava a fechar. Nada de acrobacias arriscadas para festejar o regresso dos companheiros. Nem um lambidela atrevida! Arrastava-se da poltrona até à cozinha para cheirar o prato da comida. Só a provava 50% das vezes e raramente terminava a dose que lhe tinha sido dada. Que coisa estranha. Eu fazia competições com a minha sombra para ver quem terminava mais rápido a comida.
Aos poucos, comecei a admirar o Jeremias. Não me interpretem mal, continuo a detestar gatos, mas reconheço que eles sabem viver. Adotei alguns comportamentos felinos: apoderei-me do sofá, onde apanho longos banhos de sol; não me contento com qualquer alimento que me servem (já cheguei a ficar dois dias sem tocar na taça da comida!), aprendi a reagir com indiferença quando sou solicitada em momentos inoportunos (demorei meses a aperfeiçoar os meus suspiros!)… enfim, julgo que estas atitudes me serão úteis nos tempos que se avizinham. Parece que com a chegada do bastardinho haverá menos tempo para mim e eu não quero parecer desesperada por atenção. Vou passar os meus dias de forma mais independente. Talvez deva reduzir a exigência com a comida senão arrisco-me a ficar dias sem comer e ninguém vai notar.
Noori